Memórias de uma dependente do transporte público

Quem anda de ônibus, trem e/ou metrô com certeza tem história para contar. O mundo é uma diversidade só e que lugar melhor para encontrar tanta excentricidade junta senão no transporte público? Pois bem, também tenho memórias, algumas engraçadas, outras revoltantes e outras que ainda não defini em que categoria se encontram.

Em uma das vezes voltando da faculdade, ônibus cheio, trânsito típico de São Paulo, entra um homem com um violão e uma gaita. Na minha memória ele aparenta ser boliviano, mas com trajes mexicanos (faz tempo que isso aconteceu então talvez eu tenha inventado essa parte por achar que fazia sentido).

Enfim, o homem encosta naquela parte sanfonada do ônibus articulado e começa a tocar violão e gaita ao mesmo tempo, com pausas na gaita para cantar. Veja bem, já vi gente fazendo um rap maneiro rimando viver e morrer, já vi um senhor cantando em italiano como se fosse o Pavarotti, gesticulando para todos os passageiros, mas tocar gaita&violão era inédito. Fico imaginando o equilíbrio do sujeito para conseguir tal façanha.

Pouco depois do início daquela cena inusitada ele para e com um sotaque meio irreconhecível diz: interrompemos nossa programação para falar sobre assuntos importantes. Enquanto caminhava desajeitadamente entre os passageiros ele falava sobre os 10 mandamentos e interrogava as pessoas: “Você sabe qual o 3º mandamento?”, “Sabe qual a importância dos mandamentos?”.

Acho que ele também tentava vender um livro, mas nesse momento eu evitava o contato visual para não parecer interessada. Vai que ele notasse minha atenção e me questionasse na frente de todos? Eu seria reprovada e ganharia olhares de decepção. – Além de ser mais um motivo para ele me convencer a comprar o livro que certamente eu não iria comprar.

Para minha sorte ele não demorou a dizer “agora voltamos com a nossa programação normal” e continuou tocando e cantando como se não houvesse amanhã. Infelizmente (ou felizmente caso ele voltasse a interrogar os passageiros) não teve uma segunda interrupção e ele logo desceu. Nunca mais o vi. Ou ele desistiu de ter fé na humanidade ou nunca mais encontrou o equilíbrio perfeito para pocket show em ônibus.

Se alguém já encontrou o músico-evangelizador-vendedor-equilibrista por aí me conta, ele se veste mesmo como mexicano ou era coisa da minha cabeça?

Arriba Muchachos!

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